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Quando da moita sai coelho

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Quando da moita sai coelho

A expressão não é minha. É deles. Recor­rem a ela, sem­pre que uma ideia acon­tece em sala de aula. Pouco inter­essa se é da respon­s­abil­i­dade de X, Y ou Z. Impor­tante é perceber-​se que ‘moita’ sig­nifica cabeça, mente, int­electo, e que ‘coelho’ cor­re­sponde a ideia. “Uma frase pouco pol­ida”, dirão alguns, ou “um vocab­ulário man­i­fes­ta­mente impróprio para o con­texto de sala de aula”, de acordo com a sapiên­cia de out­ros. Eu fico-​me pela per­t­inên­cia da figura de estilo. Afi­nal, o con­hec­i­mento há já alguns sécu­los que não paga indul­gên­cia, e colcha à janela é cos­tume antigo reser­vado somente para dias de pro­cis­são.
Teimamos, no entanto, em pro­lon­gar o pre­con­ceito de que o con­hec­i­mento deve vestir bem, e assumir o aspecto arru­mad­inho do aluno da fila da frente que, proibido de falar em ‘moitas’ e ‘coel­hos’ responde, con­sec­u­ti­va­mente, «sim, sen­hor pro­fes­sor». A ati­tude con­corre não só para a feli­ci­dade do mestre, como ali­menta a mas­si­fi­cação e cria um novo prob­lema: o que fazer com as cenouras? É óbvio que esta hor­tal­iça con­siste no ali­mento mais apete­cido de qual­quer coelho guloso. Todavia, se a qual­quer acção deste último é vedada a per­t­inên­cia, a cenoura não serve para coisa alguma.
E serviria para?… Substitua-​se ‘cenoura’ por processo que estim­ula a ideia. Ou, numa ver­são mais insti­tu­cional­izada, a com­plex­i­dade do con­texto de ensino-​aprendizagem, no qual for­mando e for­mador dev­erão inter­a­gir, de prefer­ên­cia sem qual­quer sofri­mento. Como se gere este processo? As ‘cenouras’ dev­erão ter car­ac­terís­ti­cas especí­fi­cas para que os ‘coel­hin­hos’ saiam mesmo das ‘moitas’? Cer­ta­mente que sug­estões mais ou menos felizes sur­girão aos qui­los mas… evi­ta­mos o pre­con­ceito?
Quem diz “burro velho não aprende letras” diz tam­bém que X não é bonito e veste mal. Que X é filho de fulano. Que X não quer tra­bal­har. Que X tem duas mul­heres e dois fil­hos de cada uma. Que X é uma safada e out­ras coisas pare­ci­das, porque não se atrevem a visitá-​los por den­tro. Mas isto é ruído, sendo que os ref­er­entes de todas estas con­ver­sas são heróis ao final do dia. E como?
Con­heço um grupo de for­man­dos adul­tos que me obrigou a ser mel­hor; que me fez perce­ber que metade dos meus prob­le­mas é insignif­i­cante; que agar­rou no meu con­hec­i­mento académico e o encos­tou à vida; que me forçou a arriscar cada vez que ini­ci­amos uma nova aula, porque os 90 min­u­tos que pas­samos jun­tos são, de facto, uma par­tilha de con­hec­i­mento, não se sabendo por vezes quem ensina e quem aprende.
Esta Gente é grande e vale mais do que a aparên­cia lhe atribui. Esta é a Gente que fala de ‘moitas’ e ‘coel­hos’ para des­ig­nar proces­sos com­plexos. Esta é a Gente que se deixa ficar no silên­cio quando a ignorân­cia alheia a afasta.
A eles o agradec­i­mento pela Coragem.

A expressão não é minha. É deles. Recorrem a ela, sempre que uma ideia acontece em sala de aula. Pouco interessa se é da responsabilidade de X, Y ou Z. Importante é perceber-se que ‘moita’ significa cabeça, mente, intelecto, e que ‘coelho’ corresponde a ideia. “Uma frase pouco polida”, dirão alguns, ou “um vocabulário manifestamente impróprio para o contexto de sala de aula”, de acordo com a sapiência de outros. Eu fico-me pela pertinência da figura de estilo. Afinal, o conhecimento há já alguns séculos que não paga indulgência, e colcha à janela é costume antigo reservado somente para dias de procissão.
Teimamos, no entanto, em prolongar o preconceito de que o conhecimento deve vestir bem, e assumir o aspecto arrumadinho do aluno da fila da frente que, proibido de falar em ‘moitas’ e ‘coelhos’ responde, consecutivamente, «sim, senhor professor». A atitude concorre não só para a felicidade do mestre, como alimenta a massificação e cria um novo problema: o que fazer com as cenouras? É óbvio que esta hortaliça consiste no alimento mais apetecido de qualquer coelho guloso. Todavia, se a qualquer acção deste último é vedada a pertinência, a cenoura não serve para coisa alguma.
E serviria para?… Substitua-se ‘cenoura’ por processo que estimula a ideia. Ou, numa versão mais institucionalizada, a complexidade do contexto de ensino-aprendizagem, no qual formando e formador deverão interagir, de preferência sem qualquer sofrimento. Como se gere este processo? As ‘cenouras’ deverão ter características específicas para que os ‘coelhinhos’ saiam mesmo das ‘moitas’? Certamente que sugestões mais ou menos felizes surgirão aos quilos mas… evitamos o preconceito?
Quem diz “burro velho não aprende letras” diz também que X não é bonito e veste mal. Que X é filho de fulano. Que X não quer trabalhar. Que X tem duas mulheres e dois filhos de cada uma. Que X é uma safada e outras coisas parecidas, porque não se atrevem a visitá-los por dentro. Mas isto é ruído, sendo que os referentes de todas estas conversas são heróis ao final do dia. E como?
Conheço um grupo de formandos adultos que me obrigou a ser melhor; que me fez perceber que metade dos meus problemas é insignificante; que agarrou no meu conhecimento académico e o encostou à vida; que me forçou a arriscar cada vez que iniciamos uma nova aula, porque os 90 minutos que passamos juntos são, de facto, uma partilha de conhecimento, não se sabendo por vezes quem ensina e quem aprende.
Esta Gente é grande e vale mais do que a aparência lhe atribui. Esta é a Gente que fala de ‘moitas’ e ‘coelhos’ para designar processos complexos. Esta é a Gente que se deixa ficar no silêncio quando a ignorância alheia a afasta.
A eles o agradecimento pela Coragem.

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4 Comentários

  1. Bruno Pires diz:

    Tens toda a razão, nestas aulas que falas, para além de Ensinar também aprendo que a vida não são bytes e bites, e se resume a coisas mais simples e que se calhar o ensinamento que eu não dava importância, o que eles me dão seja o mais importante. Valorizo o conhecimento da terra e dos anos cada vez mais. Um muito obrigado.

  2. Sílvia diz:

    Da “moita” desta grande escritora, da qual tenho o privilégio de ser colega, sairam uns quantos “coelhos” capazes de “alimentar” tantas “moitas”… Um bem-haja a Esta Gente e a ti que nos brindaste perfeitamente com esta partilha de “coelhos” de ouro!

  3. Viegas diz:

    Fiquei sem palavras. Näo é de qualquer moita que sai um coelho deste calibre

  4. Isabel Cardoso diz:

    Se me permite, gostaria de lhe dar os meus mais sinceros parabéns, não só pela qualidade da escrita mas também pela coragem, não só pela inteligente articulação de conceitos, mas também pela sinceridade, não só pela riqueza do vocabulário imprimido, mas também pela originalidade. Pela atitude, e acima de tudo pela mensagem. Pelo reconhecimento dum trabalho conjunto e que ultrapassa, como pudemos verificar, a “tradicional” relação formador(a)-formando(a). Pois na minha opinião, este texto demonstra, a cumplicidade, o sentido de partilha e de missão, não enquanto dever ou obrigação, mas enquanto algo que surge naturalmente como “Quando da moita sai coelho”.

 
 

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